O Shelby Cobra 427

O AC Shelby Cobra foi projetado tão rapidamente que a maior parte de seus chassis, suspensão e estrutura geral era uma transferência virtual do último dos Aces ingleses de seis cilindros. Depois de apenas três anos, foi apresentado um Shelby Cobra muito mais elaborado, o Mark III.

Embora os três modelos Mark III, o 289 e o 427, fossem basicamente parecidos, eles eram diferentes em quase todos os outros aspectos. O mais evidente era o motor do novo modelo 427, conhecido pelo deslocamento de metros cúbicos de seu V8 Ford bloco grande. Ele ostentava um novo chassi, novo sistema de suspensão e importantes mudanças na carroceria. Com esse motor super-potente, o Cobra Mark III era vendido somente nos Estados Unidos. Seu primo americano, o AC 289, conservou o V8 de bloco pequeno do Mark II Cobra anterior (veja o Shelby Cobra 260/289 abd AC 289 (em inglês)).

O Shelby Cobra 427, exterior
O perfil rebaixado do Shelby Cobra 427, a traseira levantada e os pneus volumosos dão a esse Cobra bloco grande um design imponente

Os dois Mark III continuaram com os mesmos chassis tubulares básicos estilo escada herdados do Ace, embora com tubos de diâmetro maior e mais separados. Molas em espiral substituíram os velhos feixes de mola frontais e traseiros, ainda presentes nos clássicos, e independentes braços horizontais duplos.

A propaganda da Shelby e da Ford na época sugeria que essa suspensão havia sido gerada por computador, mas o mais provável é que ela foi projetada de maneira convencional por Bob Negstadt da Shelby americana e Alan Turner da AC. Independentemente disso, o resultado foi uma geometria favorável a uma direção mais precisa, além da dirigibilidade que era tão boa quanto esses chassis da década de 50 podiam oferecer.

Com a competição na cabeça, e seguindo o velho preceito americano de que "nada substitui os metros cúbicos”, a equipe da Shelby insistia com toda força para encaixar o maior V8 que pudessem. Dessa forma, o 289 V8 de bloco pequeno cedeu lugar ao robusto “motor semi-hemi” Ford 427 cid, um parente próximo do motor usado nos carros Ford da NASCAR e modificado para o GT40 Mark II e para os carros Mark IV, vencedores do Campeonato Mundial de Construtores de Le Mans.

Mas espere. Embora o Cobra mais moderno sempre tenha sido conhecido como “427”, parece que muitos deles foram na verdade fabricados com o motor 428 de baixa tensão e baixo rendimento. Então, que diferença faz um metro cúbico? Muita, pois esses motores tinham dimensões de cilindro completamente diferentes (427 diâmetro/curso = 4.24 × 3.78 m, 428 = 4.14 × 3.98 m) e moldes de cabeçote. Para ser breve, o 427 era um motor de corrida, enquanto que o 428 havia sido projetado para os grandes carros de passageiros Galaxie e Thunderbird, consideravelmente mais pesado que o 427 e de forma alguma “adaptável”.

O motor do Shelby Cobra 427
Apesar de serem chamados Shelby Cobra 427, esses carros eram
na verdade fabricados com um motor 428

A carroceria do Cobra 427 era parecida com a do Mark III AC 289 e incluía muitas partes em comum. No entanto, as dimensões maiores da bitola e pneus muito mais largos levaram ao aumento dos arcos das rodas, deixando a largura geral em 17 cm comparado à carroceria do Mark II. Isso e o volumoso motor tornaram o 427 um monstro musculoso que tinha o aspecto tão agressivo quanto parecia e era só um pouco mais lento que um míssil Atlas.

De fato, o desempenho do 427 era espantoso. Mesmo os carros feitos para o consumidor comum tinham 390 bhp, enquanto o adaptado para corrida poderia fornecer até 480 bhp e um torque de 480 lbs-ft de tirar pedaço da pista. Durante os seus três anos de produção, o Cobra 427 foi, sem dúvida, a máquina mais veloz e potente das estradas americanas. Foi, e ainda é.

Infelizmente, as vendas pararam, bem como a produção, em 1967. Em 1968, o nome Cobra (que agora pertencia à Ford, não a Carroll Shelby) começou a aparecer nos motores levantados do Mustang.

Na verdade, qualquer Cobra, mas em especial o 427, era rápido demais para seus chassis, e nem de perto tão refinado, ou tão confiável, como deveria ter sido. Ainda por causa de sua raridade e desempenho assustador, os motores híbridos de alto desempenho da Shelby cresceram em status e valor de coleção com o passar dos anos. A demanda rapidamente superou a oferta, resultando em uma grande quantidade de réplicas do Cobra nos anos 70 e especialmente nos anos 80. A maioria utilizava - acredite ou não - chassis de modelos ainda mais pesados.

Felizmente, a pequena porém insistente demanda pelos carros Cobra de verdade estimularam Brian Angliss e a empresa Autokraft da Inglaterra a fabricar Cobras “Mark IV” utilizando os componentes originais comprados da AC, que a Autokraft havia então adquirido. Esses carros têm agora a aprovação oficial da Ford, o que serve apenas para mostrar que algumas lendas não serão reduzidas a simples história .

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