A ira de trânsito no Brasil

De uma maneira geral, o fenômeno da ira de trânsito vem ocorrendo também no Brasil. As causas e as situações são praticamente as mesmas, especialmente nos grandes centros urbanos nas estradas quando estão muito movimentadas, como nos feriados prolongados pelo fim de semana. Mas no Brasil há duas variáveis mais, não qualitativas, mas quantitativas, por força das características da frota e do Código de Trânsito vigente: os veículos pesados (caminhões e ônibus) e as motocicletas, em particular as usadas no serviço de entregas rápidas dirigidas pelo grupo de profissionais chamados de motoboys.

Vamos ver nesse capítulo quais são essas variáveis, como elas influenciam na ira de trânsito e o que pode ser feito pelo motorista para evitá-la.

Quantidade

Devido ao modal brasileiro de transporte de carga e de passageiros ser predominantemente rodoviário, a frota de caminhões e ônibus é muito grande em relação à dos automóveis, hoje pouco mais que a quinta parte, contra cerca de 10% nos EUA, por exemplo. Some-se a infra-estrutura rodoviária brasileira insuficiente e precária, em termos mundiais, e temos aí um palco perfeito para disputa de espaço.

O número de motocicletas tem registrado crescimento vertiginoso, especialmente as de baixa cilindrada, de até 150 centímetros cúbicos, cujo efeito na composição da frota é devastador a olhos vistos. Só na cidade de São Paulo contam-se mais de 500 mil motos, ante a frota total de 5,5 milhões de veículos. A capital paulista, que se mostra cada vez mais congestionada, tem nas 200.000 motocicletas usadas em entregas rápidas certamente são um agente complicador.

Código de Trânsito aperfeiçoável

O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) ainda é muito leniente com o transporte pesado. Com isso, a conduta dos motoristas desses veículos reflete certeza de impunidade para cometer infrações de trânsito como uso desmedido da faixa esquerda e saída abrupta para efetuar ultrapassagem, duas atitudes geradoras de ira de trânsito. Além da questão de comportamento, fiscalização é precária, sendo comum o excesso de peso que torna os caminhões mais lentos e menos manobráveis, que passam a ser “obstáculos” móveis para os veículos leves, novamente gerando atritos que facilmente conduzem à ira de trânsito.

Automóveis e comerciais leves, por outro lado, podem rodar nas rodovias em velocidade tão baixa como metade da máxima indicada e isso costuma provocar irritação em quem quer seguir viagem normalmente respeitando o limite de velocidade. De fato, nas modernas rodovias de pista dupla multifaixa em que o limite é de 120 km/h, encontrar pela frente um veículo a 60 ou 70 km/h, e este se recusar ou demorar a ceder passagem, é capaz de gerar irritação e, na esteira, ira de trânsito.

Seria bem-vinda mudança no CTB que criasse dispositivo que permitisse à autoridade de trânsito estabelecer velocidade mínima acima da norma atual e claramente sinalizada, conjugado com fiscalização sobre aqueles que relutam em dar ultrapassagem, que constitui infração pelo CTB. Isso realizado, o efeito sobre a redução da ira de trânsito seria considerável.

Outra mudança importante no CTB seria restabelecer o Art. 56, vetado pelo presidente da República Fernando Henrique Cardoso antes que o instrumento legal fosse finalmente promulgado em 23 de setembro de 1997. O referido artigo proibia motocicletas ultrapassar entre dois veículos de quatro ou mais rodas, ou entre esses veículos e guia da calçada, nas cidades, ou barreira de proteção, nas rodovias.

A medida traria enorme benefício a todos, uma vez que o quadro hoje é aterrorizador, o de motocicletas - às dezenas - passando em alta velocidade entre filas de carros parados ou em movimento e pior, tocando interminavelmente as buzinas. Até para os próprios motociclistas, a maioria motoboys haveria ganho, pois os índices de acidentes com estes são elevados ao ponto de se registrar uma morte e 25 ferimentos graves por dia na cidade de São Paulo (Dado: Companhia de Engenharia de Tráfego).

Desnecessário dizer, esse comportamento dos motociclistas de entregas rápidas vem gerando cada vez mais ira de trânsito. Não raro, ao ocorrer pequenos acidentes, eles estacionam as motos e, como numa horda que busca justiça pelas próprias mãos, praticam todo tipo de agressões contra motoristas, com pelos menos danos materiais de grande monta. Isso quando não se sentem “espremidos” e danificam propositalmente os automóveis, quebrando os hoje dispendiosos espelhos retrovisores ou chutando portas.

Esse tipo de problema específico não existe, por exemplo, nos EUA e na Alemanha, onde motos têm a mesma obrigação dos demais veículos: todos devem permanecer parados num engarrafamento. E ultrapassar entre fileiras de carros, nem pensar.

Evitando a ira de trânsito

Evitar a escalada da ira de trânsito no Brasil obedece aos mesmos princípios já descritos para os Estados Unidos. No caso dos veículos pesados, há que se ficar atento aos seus movimentos e permanecer na defensiva sempre, procurando antecipar-se a manobras tipo sair para ultrapassar de repente. Depois que você finalmente conseguir ultrapassá-lo, siga viagem normalmente, sem buzinar, fazer gestos ofensivos ou insinuar que vai dar uma fechada no veículo pesado. Não vale a pena iniciar uma discussão.

É comum o motorista de automóvel se impacientar numa rodovia de mão dupla quando está atrás de um caminhão e não há como ultrapassar. Nesse momento você deve usar todo o autocontrole de que dispõe e ter paciência. Além de constituir infração gravíssima (Art. 206 inciso V), ultrapassar nessa situação é muito perigoso, sendo uma das maiores causas de acidentes sérios. Aguarde que haverá uma oportunidade para efetuar a manobra com segurança. E a sua atitude contribuirá também para evitar a ira de estrada.

Uma situação bastante comum no Brasil e que gera ira de estrada é num engarrafamento motoristas utilizarem o acostamento para se adiantarem. Por mais que isso o irrite, ver outras pessoas obtendo vantagem e você se sentir um bobo ali parado, deixe para a polícia rodoviária a punição a esses maus motoristas. Permaneça pacientemente na sua faixa e, em especial, não tente bloquear o "esperto" que deseja sair do acostamento para tomar a faixa da direita na sua frente. Muitos atritos e brigas resultam dessa atitude de se querer ser vigilante rodoviário.

No caso das motocicletas é mais difícil, mas não impossível, evitar atritos. Já que as motos vão mesmo passar entre seu carro e outro, exercite permanecer o mais possível no centro da sua faixa de rolamento. Mantenha toda atenção ao tráfego pela retaguarda e sempre dê seta ao mudar de faixa. Mas antes de iniciar a manobra tenha certeza de a moto ainda está distante, levando em conta que é normal ela se aproximar velozmente do seu carro. Refreie-se de revidar um xingamento ou um insulto, pois isso poderá gerar uma briga, e não vale a pena.

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